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Apagaram tudo

Vi hoje, de dentro do ônibus, que pintaram o cruzamento da Engenheiro Santana Jr. com a uma rua que eu não sei o nome, perto do Terminal do Papicu. Pintaram exatamente as paredes com as inscrições do sapateiro que trabalha lá há não sei quantos anos. Nem sei se é sapateiro, apenas imagino.

Eu nunca gostei daquelas frases. Sempre achei feioso. E elas sempre diziam coisas do tipo “Os pobres têm a alma boa e os ricos são ruins”, tudo nesse estilo. Ok, me dê seu dinheiro, então. Mas divago. Eu passei lá e vi tudo branco. Quer dizer, branco não, manchado. A tinta era de pouca qualidade, então eu pude ver os resquícios das palavras. E é claro que, contrariando tudo que eu pensava antes, aproveitei a oportunidade para praguejar mentalmente as pessoas. E praguejar mentalmente esse acidente que as pessoas insitem em chamar de cidade. De Fortaleza.

são 2:59 do dia 07 de outubro. até o dia 23 eu preciso ter alguns muitos trabalhos prontos pra faculdade. eu não quero fazer esses trabalhos, tampouco quero ser jornalista quando crescer. o que me leva à eterna pergunta: pra que ainda curso a faculdade, então?

acho que deve ser por coisas tipo o seriado que vi no domingo, na casa de um familiar. acho que era um seriado, nem sei, mas era algo sobre um estágio na revista rolling stone. por um breve momento, ser jornalista parece algo interessante, mas interessante num jeito quase famosos, algo que nunca aconteceria comigo. aí eu vou, continuo na faculdade, me formo, e o melhor emprego que posso conseguir é pra ser repórter de algum caderno de cultura daqui da província, escrevendo muito provavelmente sobre um espetáculo de arte moderna onde todo mundo fica pelado.

“i think that i’m gonna melt in this town
so fucking sunny, i walk with a frown all day”

eu estou esperando que algum cientista bondoso venha do mundo civilizado até a minha cidade, faça algumas experiências – porque cientista que se preze tem que fazer experiências – e decrete, com toda a autoridade científica que lhe tenha sido concedida, que o clima daqui simplesmente não é adequado à vida humana. do mesmo jeito que decretaram que o clima de, sei lá, marte, não é adequado. ou pelo menos eu imagino que não deva ser.